sexta-feira, 4 de abril de 2025

Suspeita de interferência dos EUA teria motivado espionagem bolsonarista via Abin contra o Paraguai

Investigação da Abin contra o Paraguai no governo Bolsonaro teria como objetivo verificar se outros países estariam financiando pressões contra o Brasil

       Fachada da Abin (Foto: Reprodução/Abin)

A investigação sigilosa da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) contra o Paraguai no governo Jair Bolsonaro (PL) teria como principal objetivo verificar se serviços secretos de outros países, com destaque para a CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, estariam incentivando ou até financiando pressões contra o Brasil na negociação do acordo de Itaipu.

O centro da apuração estaria no possível envolvimento de atores internacionais na campanha por uma revisão do tratado da usina hidrelétrica binacional. A operação da Abin foi iniciada durante o governo Bolsonaro e, segundo o Itamaraty, foi encerrada em 2023, logo após o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tomar conhecimento do caso.

Segundo uma fonte ouvida pela coluna do jornalista Octávio Guedes, do g1, a agência monitorava indícios de atuação externa que poderiam impactar diretamente a competitividade da indústria brasileira, por meio da elevação dos preços da energia elétrica — uma consequência direta caso o novo acordo aumentasse os custos do lado brasileiro.

As atividades da Abin, no entanto, se tornaram públicas após o vazamento de informações constantes em um inquérito conduzido pela Polícia Federal. De acordo com informações divulgadas sobre o caso, inicialmente pelo portal UOL, um servidor da agência afirmou em depoimento ter ocorrido uma invasão nos sistemas do governo paraguaio, com o suposto intuito de colher informações estratégicas para beneficiar o Brasil nas negociações sobre a usina.

A revelação do caso gerou um incidente diplomático entre os dois países. O governo paraguaio cobrou explicações formais do Brasil e suspendeu as negociações relativas à comercialização da energia de Itaipu.

Ainda de acordo com a fonte consultada pelo blog, a atenção da Abin se voltou a uma campanha articulada por uma organização não-governamental paraguaia, a Demos (Centro para a Democracia, a Criatividade e a Inclusão Social), que atuava em espaços ligados aos Estados Unidos. A entidade promovia eventos públicos que exigiam mudanças no tratado e acusavam o Brasil de impor uma "dívida espúria" ao país vizinho.

Um desses encontros teria ocorrido em 8 de abril de 2019, no Teatro de las Américas del CCPA, em Assunção, capital paraguaia. O local, segundo o site oficial, é administrado por um comitê paritário com representantes paraguaios e norte-americanos. A escolha do espaço alimentou a suspeita, entre os analistas da Abin, de que poderia haver financiamento ou estímulo indireto por parte dos EUA à ofensiva contra o Brasil.

Durante a conferência, a Demos apresentou estratégias de mobilização que incluíam a formação de uma base aliada, conquista de simpatia internacional e ações para ampliar o apoio à causa, inclusive dentro do próprio Brasil. A recomendação, segundo a reportagem, era evitar discursos de confronto direto com os brasileiros, para facilitar a adesão de setores progressistas do país.

Fundada pelo cientista político Miguel Carter, a ONG Demos sustenta que o Paraguai teria perdido até US$ 75,4 bilhões com o modelo de comercialização da energia produzida por Itaipu. Carter propõe que o país vizinho tenha liberdade para vender sua cota de eletricidade a outros mercados, e não apenas ao Brasil, como estipula o tratado atual.

Nas apresentações públicas promovidas pela entidade, Carter compara o Paraguai a Davi e o Brasil a Golias, numa analogia ao enfrentamento entre o país pequeno e o gigante regional. Para os setores de inteligência, esse discurso busca criar uma narrativa internacional de vitimização do Paraguai e opressão brasileira.

A adoção dessas mudanças, caso fossem implementadas, poderia encarecer a energia comprada pelo Brasil e enfraquecer a competitividade da indústria nacional — especialmente a paulista, uma das maiores consumidoras da energia de Itaipu.

A suspeita de que a Abin teria participado de ataques cibernéticos a sistemas paraguaios se somou à desconfiança sobre a atuação da CIA, alimentando uma crise nas relações bilaterais. A versão apresentada pela fonte da Abin, no entanto, busca afastar qualquer intenção de obtenção de vantagens indevidas, atribuindo as ações da agência à proteção dos interesses estratégicos do país.

Fonte: Brasil 247 com informações do G1

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