Mesmo diante de sobretaxas impostas pelos Estados Unidos, Brasil aposta na diplomacia e mantém apelo por reciprocidade comercial
Diante da nova onda de tarifas comerciais impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o aço e o alumínio brasileiros, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva traça uma estratégia que prioriza o diálogo e a via diplomática, embora não descarte a possibilidade de retaliação. A informação foi publicada nesta quinta-feira (4) pela Folha de S.Paulo, que revelou bastidores e posicionamentos de autoridades brasileiras frente ao tarifaço norte-americano.
A abordagem definida pela administração Lula prevê uma atuação em duas frentes: de um lado, o Brasil envia sinais públicos de que tem meios legais para reagir e adotar contramedidas; de outro, trabalha para avaliar o real impacto das tarifas e manter canais de negociação com os Estados Unidos, com o objetivo de reabrir cotas para exportações de produtos siderúrgicos brasileiros.
A importância do setor é inegável. Apenas em 2024, as exportações de produtos semiacabados de ferro ou aço para os EUA somaram US$ 3,5 bilhões. O governo brasileiro sustenta que há argumentos sólidos a seu favor: o Brasil exporta materiais semiacabados, o que não compete diretamente com a indústria americana, e é um dos grandes compradores de carvão metalúrgico dos próprios Estados Unidos.
◍ Cotas na siderurgia
O Instituto Aço Brasil, que representa as siderúrgicas nacionais, reforçou que a prioridade é restaurar o acordo de cotas, encerrado recentemente, que previa isenção tarifária para esses produtos. A entidade defende a solução negociada como o melhor caminho para preservar empregos e a competitividade do setor.
Em evento realizado na quinta-feira (3), o presidente Lula foi enfático: “O Brasil respeita todos os países, do mais pobre ao mais rico, mas exige reciprocidade. Diante da decisão dos EUA, de impor sobretaxa aos produtos brasileiros, tomaremos todas as medidas cabíveis para defender nossas empresas e nossos trabalhadores brasileiros”. Ele também mencionou a Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, e destacou que o país não aceitará passivamente ataques ao seu setor produtivo: “[O Brasil] não bate continência para nenhuma outra bandeira que não seja a verde e amarela”.
O tom presidencial, contudo, contrasta com a postura mais cautelosa expressa pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin. Também na quinta-feira (3), durante entrevista a um podcast, Alckmin declarou: “[É] uma boa legislação, necessária, importante, mas não pretendemos usá-la. O que queremos fazer é o diálogo e a negociação. Mesmo o Brasil ficando com a menor tarifa, 10%, ela é ruim. Ninguém ganha numa guerra tarifária, perde o conjunto”.
Nos bastidores, membros do governo acreditam que os esforços diplomáticos já produziram efeitos positivos. A tarifa aplicada ao Brasil foi inferior à imposta a outros países, o que seria reflexo da insistência brasileira em ressaltar dados concretos: o país aplica apenas 2,7% de tarifa média a produtos americanos e os EUA acumulam superávits comerciais recorrentes nas trocas com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos.
◍ Impactos negativos
Entretanto, os impactos negativos já preocupam setores industriais. A Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) alertou que a elevação tarifária afeta diretamente a competitividade brasileira. Em 2024, 25% das exportações do setor foram destinadas aos Estados Unidos. “Seremos menos competitivos em relação à indústria local [americana] de máquinas e equipamentos. Podemos citar como exemplo máquinas agrícolas, rodoviárias e máquinas para a indústria de transformação”, apontou a associação.
O presidente da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), Jorge Viana, adotou tom realista: “O Brasil não tem que focar em qual vantagem a gente vai tirar disso. Abrem-se muitas possibilidades, mas acho que, antes das possibilidades, vão vir as dificuldades”. Ele acrescentou: “Quando o Congresso cria um instrumento de reciprocidade, já está mandando um sinal para os negociadores dos Estados Unidos de que tem isso [possibilidade de retaliar]. [Precisa] ter cautela e calma nessa hora”.
Nos corredores diplomáticos, há quem veja o episódio como uma oportunidade para acelerar o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, tese defendida por setores europeus. Porém, o embaixador da França no Brasil, Emmanuel Lenain, afirmou que o endurecimento da política comercial americana não reduzirá as resistências francesas às cláusulas do tratado.
O governo brasileiro avalia, neste momento, todas as variáveis. A prioridade é entender os impactos reais da medida sobre a pauta exportadora nacional, antes de tomar qualquer ação retaliatória. O sinal está dado: o Brasil está preparado para agir, mas prefere a via da negociação.
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo
Nenhum comentário:
Postar um comentário