Economistas avaliam que sinalização sobre mercado de trabalho e inflação permite redução adicional da taxa de juros para 13,75% ao ano
Sede do Banco Central em Brasília-DF – 29/10/2019 - Crédito: REUTERS/Adriano Machado
A ata da reunião da semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que reduziu a taxa básica de juros (Selic) de 14,25% para 14% ao ano, veio mais enxuta, direta e com sinais maiores de percepção de desaceleração da atividade econômica no país. Embora o documento não traga uma indicação formal ou explícita sobre os próximos passos da autoridade monetária, a leitura predominante entre especialistas é de que o cenário abre espaço para uma nova redução da taxa de juros no encontro agendado para setembro, relata Míriam Leitão, do jornal O Globo.
Na visão de Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, apesar de o Copom reforçar a necessidade de manter a taxa de juros em patamar elevado e destacar o processo de desancoragem das expectativas de inflação, a ata traz sinais consistentes de arrefecimento econômico, com destaque para as projeções direcionadas a 2028. Essa combinação, segundo o analista, viabiliza uma redução adicional da Selic na próxima reunião do comitê.
“Os termos colocados na ata, especialmente em relação ao mercado de trabalho, dão essa sinalização de que a gente pode ter uma queda adicional na próxima reunião. E há o reforço de que choques de oferta não devem provocar mudanças na política de juros quando seus efeitos sobre a inflação são apenas de primeira ordem. O tema geral da ata, no final, foi de que há espaço para uma acomodação adicional na próxima reunião. Obviamente, isso não foi formalizado nem sinalizado de forma explícita, mas acho que, mais do que o comunicado da semana passada, a ata abre espaço para um corte de 0,25 ponto percentual na próxima decisão”, afirma Sérgio Vale.
Por outro lado, a extensão desse ciclo de flexibilização monetária enfrenta limitações impostas por um balanço de riscos considerado assimétrico, conforme pondera o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani. O analista ressalta que um conjunto de incertezas fiscais e globais exige cautela por parte do Banco Central e reduz a margem para cortes mais profundos.
“A ata fala que existe uma assimetria nos riscos. Basicamente, o que temos são expectativas de inflação acima da meta, influenciadas por choques, preocupação com a inflação de serviços, dúvidas em relação ao comportamento do câmbio, que refletem um cenário global de maior aversão ao risco, além de dúvidas fiscais domésticas e a possibilidade de estímulos do governo reacelerarem a atividade econômica. Como o BC faz o exercício quantitativo com seu modelo e chega a uma inflação de 3,2% com a Selic em 13,75%, aparentemente estaria confortável para cortar mais uma vez os juros na reunião de setembro. Mas, claramente, não daria para ir muito além de 13,75% por causa desse balanço de riscos e da possibilidade de novos choques”, explica o economista do Banco BV.
Já para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, a eventual redução prevista para o mês de setembro deve representar o último movimento de ajuste na taxa básica de juros no decorrer deste ano.
“Novembro e dezembro combinam a volatilidade do calendário eleitoral com um El Niño de intensidade forte a muito forte, o que reduz a margem para novas quedas de juros”, analisa Gustavo Sung, projetando um cenário de encerramento dos cortes na reta final do ano diante das pressões climáticas e do ambiente político.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo