sexta-feira, 28 de março de 2025

Com medo da prisão, Bolsonaro aciona militância, intensifica ofensiva contra o STF e pressiona por anistia

Jair Bolsonaro aposta em manifestações, viagens e retórica agressiva para pressionar o STF e mobilizar apoiadores contra julgamento da trama golpista

           Jair Bolsonaro faz declaração à imprensa em Brasília - 26/03/2025 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Jair Bolsonaro (PL) dá sinais de estar promovendo uma guinada estratégica frente ao avanço do julgamento sobre a tentativa de golpe de Estado. Após se tornar réu no Supremo Tribunal Federal (STF) na última quarta-feira (26), ele aumentou sua exposição pública e endureceu o discurso, buscando mobilizar sua base com mais intensidade, relata a Folha de S. Paulo.

A meta de Bolsonaro, segundo aliados, é clara: acionar sua militância, reforçar a narrativa de perseguição política e tentar criar um ambiente de pressão popular para reverter o curso do julgamento — seja por meio da aprovação de uma anistia no Congresso, seja por eventual intervenção internacional. Nos bastidores, bolsonaristas apostam até em uma reação dos Estados Unidos contra o Judiciário brasileiro como tática para reequilibrar o tabuleiro.

◎ Mobilização em marcha - Ainda na quarta-feira (26), dia em que foi tornado réu, Bolsonaro discursou por 50 minutos e depois falou por mais 45 minutos com jornalistas no Senado. Desde então, os bolsonaristas passaram a intensificar a convocação para atos públicos. A esquerda chamou uma manifestação na Avenida Paulista para o próximo domingo (30), com o objetivo de pedir a prisão de Bolsonaro. Já os apoiadores do ex-presidente marcarão presença na mesma avenida no domingo seguinte, dia 6 de abril, com a participação de parlamentares e governadores aliados.

O senador Jorge Seif (PL-SC), um dos articuladores da mobilização, afirmou: “vamos rodar o Brasil inteiro e fazer manifestação pela anistia. Ele vai para Rio Grande do Norte, ele vai para Santa Catarina, ele vai para Paraná, ele vai para São Paulo. Vai tocar a vida dele normal. Ano que vem é uma eleição importante. Tem que fortalecer as lideranças dos nossos partidos, dos aliados”.

A estratégia, dizem aliados, inclui deixar Bolsonaro discursar livremente, sem roteiro prévio, com a recomendação apenas de evitar insultos e palavrões — o que já causou problemas no passado, como quando chamou o ministro Alexandre de Moraes de “canalha”. Mesmo assim, o ex-presidente voltou a usar tom agressivo e atacar as urnas eletrônicas. “Eu não sou obrigado a acreditar, confiar num programador. Eu confio na máquina”, afirmou em nova crítica ao sistema eleitoral eletrônico.

Ele também reforçou a narrativa de perseguição: “[O STF] Quer botar 30 [anos de cadeia] em mim. Se eu estivesse devendo qualquer coisa eu não estaria aqui. Fui para os Estados Unidos, graças a Deus, que se eu estivesse aqui no dia 8 de janeiro, eu estaria preso até hoje. Ou morto, que é o sonho que eu sei de alguns aí. Porque preso eu vou dar trabalho".

◎ Contra a delação de Mauro Cid e em defesa da anistia - Nas viagens programadas pelo país, Bolsonaro pretende insistir nos argumentos que sua defesa já levou ao STF, especialmente para tentar descredibilizar a delação de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens, hoje peça central nas investigações sobre a tentativa de golpe.

O eixo do discurso se concentra agora na proposta de anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Além de recorrer ao Congresso, Bolsonaro pretende usar a mobilização popular como ferramenta de pressão. A versão atual do projeto de anistia em discussão é ampla, e há expectativa entre os aliados de que ele próprio possa ser beneficiado.

◎ Olhar voltado para Washington - Outro componente da estratégia bolsonarista envolve a esperança de que os Estados Unidos, sob eventual retorno de Donald Trump à presidência, imponham algum tipo de sanção ou restrição a ministros do STF, principalmente Alexandre de Moraes. Segundo o deputado federal Sanderson (PL-RS), essa reação internacional poderia provocar algum movimento interno. “Pode, inclusive, fazer com que algum ministro possa pedir vista. Tu pode ter algum posicionamento de instituições internacionais sobre o que está acontecendo”, afirmou.

Internamente, há expectativa quanto ao posicionamento do ministro Luiz Fux, único, até agora, a expressar discordâncias em relação a decisões de Moraes nos casos dos ataques golpistas. Bolsonaro, que acompanhou o segundo dia do julgamento ao lado do filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ), disse estar “positivamente surpreso” com Fux, o que gerou otimismo entre seus apoiadores.

Cortes das falas do ministro já circulam nas redes sociais bolsonaristas, embora aliados ainda mantenham dúvidas quanto ao voto de Fux no julgamento do mérito. Até lá, Bolsonaro seguirá apostando na rua e no discurso de mártir político, como estratégia de sobrevivência e tentativa de virar o jogo no Supremo.

Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário